Houve um tempo (até os anos 1980) em que, para ensinar Língua Portuguesa, era possível prescindir do texto, uma vez que a palavra, depois a frase, foram consideradas unidades mínimas para esse ensino. No entanto, a partir da segunda metade dos anos 1990, os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (MEC, 1998) estabeleceram que o objeto mínimo de que se deveria partir para o ensino de Língua Portuguesa seria o texto.

Hoje, trinta anos depois da publicação dos PCN, um novo documento, a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (MEC, 2017), apresenta diretrizes para o ensino das diversas disciplinas que devem compor o ciclo de 12 anos da Educação Básica. No caso específico de Língua Portuguesa (LP), há um nítido diálogo entre o que disseram os PCN e o que afirma hoje a BNCC. Na verdade, pode-se dizer que neste documento encontra-se uma atualização sobre o trabalho com práticas de linguagem e texto. Na BNCC, são feitos acréscimos que consideram as formas de interação verbal do ambiente digital e as diversas possibilidades de usar a linguagem proporcionadas em boa medida pelas Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação –TDIC.

Assim, na BNCC, mantém-se a perspectiva enunciativo-discursiva da linguagem, a partir da qual se deve trabalhar o texto – unidade mínima de ensino de LP – sempre considerando seu contexto de produção: quem diz algo, em que situação, para quem, com qual objetivo, de que forma; a troca verbal com quem interage com o texto: para quem o texto chega, que perguntas, reflexões, críticas e respostas o texto pode provocar no outro, considerando-se que esse outro é um sujeito histórico, que vive em um tempo, em um lugar e que tem suas próprias experiências. No ensino de LP, essas experiências com a linguagem devem estar relacionadas ao desenvolvimento de habilidades de fala, escrita, escuta e leitura de textos que circulam em diferentes mídias (áudio, vídeo, texto impresso, por exemplo) e em diferentes semioses (verbal – oral e escrita, não verbal/visual, verbo-visual) e que concretizam diferentes gêneros discursivos utilizados em diferentes práticas sociais da esfera pública, do trabalho e privada (panfleto, aviso, meme, conversa – face a face, em aplicativo de celular, recado, conto, relatório, post, narrativa digital, entre muitos outros).

A consideração de textos multissemióticos – aqueles em que se apresenta mais de uma semiose (verbal, visual e/ou verbo-visual) que podem pertencer a gêneros típicos da cultura do impresso (como outdoor) ou a gêneros emergentes da cultura digital (como trailer honesto) – é a relevante atualização da BNCC com relação a práticas de linguagem contemporâneas e é um dos aspectos que devem ser observados no ensino de Língua Portuguesa. É preciso lembrar, no entanto, que a abordagem de qualquer tipo de texto no ensino de Língua Portuguesa ou de qualquer outra disciplina dos ensinos Fundamental e Médio deve ser pensada contextual e funcionalmente e com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de cidadãos críticos, que são capazes de interagir socialmente pelos sentidos que se criam na e pela linguagem.

Autora: Nukácia Araújo.